
Resumindo
2025...
Se
há algo que o cenário de games no Brasil provou
recentemente é que ele segue vivo, inquieto e mais
diverso do que aparenta à primeira vista, mesmo operando
sob limitações históricas de financiamento,
visibilidade e políticas públicas erráticas.
O que mais importou não foi um grande hit isolado,
mas o conjunto de movimentos que mostram amadurecimento
criativo, profissionalização gradual e resistência
cultural.
O
maior destaque continua sendo a produção independente,
que responde hoje pela esmagadora maioria dos lançamentos
nacionais. Pequenos estúdios e desenvolvedores solo
seguiram apostando em jogos autorais, muitas vezes com forte
identidade cultural, experimentalismo mecânico ou
discurso político explícito, algo que sempre
diferenciou o Brasil no cenário indie internacional.
Títulos narrativos, jogos de terror psicológico,
adventures e experiências híbridas (entre game,
arte e manifesto) continuam sendo o território onde
o Brasil mais se expressa.
Eventos
nacionais tiveram papel central nesse processo. SBGames,
BIG Festival (agora integrado à
Gamescom Latam) e Retrocon
funcionaram como vitrines reais para jogos brasileiros,
não apenas como espaços de networking, mas
como ambientes de validação cultural. O BIG,
em especial, segue sendo a principal porta de entrada internacional
para produções nacionais, apesar das críticas
recorrentes sobre curadoria, competição desigual
e o risco de pasteurização estética.
A
Gamescom Latam / BGS, por sua vez, mostrou
avanços tímidos no espaço dado ao desenvolvedor
brasileiro, mas ainda muito aquém do ideal. O contraste
entre estandes milionários de grandes publishers
e a precariedade estrutural de muitos indies nacionais segue
sendo um retrato honesto da indústria local: talento
abundante, recursos escassos.
Outro
ponto relevante foi a continuidade da cena retrô e
da preservação digital. Iniciativas independentes,
coletivos, livros, eventos e relançamentos não
oficiais reforçaram a importância histórica
dos games brasileiros dos anos 80 e 90.
Mais do que nostalgia, trata-se de reconhecimento: entender
que existe uma linhagem criativa local anterior às
engines modernas e aos editais.
No
campo econômico, o ano foi marcado por expectativa
frustrada em relação a políticas públicas.
Incentivos específicos para games continuam diluídos
entre audiovisual, inovação e cultura, sem
uma estratégia clara. O discurso de "economia
criativa" segue forte, mas raramente acompanhado de
ações estruturais consistentes para quem desenvolve
jogos no país.
Também
merece destaque o avanço, ainda que controverso,
de temas como diversidade, representatividade e crítica
social nos jogos brasileiros. Enquanto parte do público
reage com hostilidade, muitos desenvolvedores seguem tratando
games como linguagem cultural legítima, não
apenas produto de consumo. Isso gera ruído, cancelamentos
e polarização, mas também identidade
e relevância.
Por
fim, talvez o aspecto mais importante: o Brasil segue produzindo
jogos apesar do sistema e não por causa dele. O que
se destacou não foi a exceção bem sucedida,
mas a persistência cotidiana de quem lança
jogos sabendo que dificilmente recuperará o investimento
inicial. Em um mercado saturado, globalizado e brutalmente
competitivo, continuar criando já é, em si,
um ato heróico.
O
cenário brasileiro de games não vive um momento
dourado. Vive um momento real. E isso, para quem o acompanha
há décadas, é um avanço que
não deve ser subestimado. Ainda assim temos um problema
crônico que tem sido insuperável: a falta de
uma divulgação orgânica efetiva, das
criações nacionais.
Participo
de grupos e fóruns de discussão de jogos bem
antes do surgimento da internet, no final dos anos 80,
quando os BBS (Bulletin Board System)
estavam no auge. Mesmo com todo potencial que a internet
trouxe, não existe (ainda) uma cultura que de fato
apoie a produção nacional. Mesmo entre o pessoal
da área de desenvolvimento, ferramentas, livros,
postagens e mesmo palestras de desenvolvedores locais não
tem a repercussão necessária. Até mesmo
quando os próprios criadores estão a um click
de distância.
Talvez
resida ai a falta de grandes títulos de relevância
nacional, num primeiro momento, e internacional como consequência.
A sabedoria popular diz que santo de casa de não
faz milagres, mas se nem os locais conseguem "ver"
esses pequenos milagres, o que sobrará para o resto
do planeta ver?
Neste
final de ano pense um pouco sobre isso tudo. Não
tanto por seu game, mas pelos trocentos games brasileiros
que passam invisíveis pelo tempo e que acabam no
limbo quase que sem registro algum.