
Meu
Voto Vai Para...
Estamos
perto de uma eleição que, se ocorrer dentro
das regras, pode mudar o rumo para onde estamos indo ou
ficar no mesmo ponto em que estamos hoje. Então,
fiz o que toda pessoa sensata, moderna, antenada, consciente,
realmente democrática e defensora da cultura nos
games faz: perguntei pro chatGPT. Mas calma, não
perguntei qual é a melhor opção pois
isso é uma decisão pessoal de cada um. Pedi
para ele fazer uma pesquisa na internet e elencar quais
são as propostas, dos principais candidatos, para
o nosso setor. Sem paixões, sem pender para este
ou aquele candidato. Apenas fatos que nos ajudem a compreender
o que estão "prometendo". A resposta veio
bem clara.
De
forma geral, os programas de governo dos principais candidatos
à Presidência em 2026 tratam
tecnologia, inovação e inteligência
artificial com muito mais frequência do que a indústria
de jogos digitais propriamente dita. Quando os games aparecem,
normalmente estão inseridos em temas mais amplos,
como economia criativa, cultura, educação
digital, esportes eletrônicos ou proteção
de crianças e adolescentes.
Segue
um resumo factual das principais propostas relacionadas
ao setor, que o GPT mapeou:
Luiz
Inácio Lula da Silva (PT) - O plano
menciona a indústria de games como parte da economia
criativa e da política cultural. Também propõe
ações voltadas ao letramento digital e ao
chamado "ECA Digital", incluindo regras para plataformas
e jogos voltadas à proteção de crianças
e adolescentes. Ampliação da infraestrutura
digital, data centers, IA brasileira, digitalização
de serviços públicos, fortalecimento da indústria
nacional de tecnologia.
Flávio
Bolsonaro (PL)- Não apresenta um
capítulo específico para games. Durante a
campanha busca aproximação com o público
gamer, inclusive utilizando símbolos ligados aos
eSports, como a equipe FURIA.
O programa enfatiza inovação, redução
de burocracia, empreendedorismo e incentivos ao setor privado
em tecnologia.
Ronaldo
Caiado (PSD) - Não há propostas
específicas para a indústria de games. Dá
destaque à IA aplicada à segurança
pública, transformação digital e modernização
tecnológica do Estado.
Romeu
Zema (Novo) - Não apresenta propostas
específicas para jogos digitais. Defende menor intervenção
estatal, estímulo ao ambiente de negócios
e posição mais liberal em relação
à regulação tecnológica.
O
que chama a atenção? Curiosamente a indústria
de games ainda recebe relativamente pouco espaço
nos programas presidenciais. Quase não há
propostas detalhadas sobre temas como: desenvolvimento de
estúdios nacionais, incentivos fiscais específicos
para produção de jogos, exportação
de games brasileiros, financiamento para estúdios
independentes, preservação digital, formação
de profissionais para a indústria de games, políticas
para motores gráficos, middleware ou propriedade
intelectual específica do setor.
A
cobertura especializada sobre os programas de governo destaca
que os candidatos dedicam muito mais espaço a temas
como inteligência artificial, soberania tecnológica,
infraestrutura digital e digitalização dos
serviços públicos do que ao mercado de jogos
digitais em si. Em outras palavras, os games costumam aparecer
como um componente de políticas mais amplas de tecnologia,
cultura ou economia criativa, e não como um setor
com um conjunto próprio de propostas.
Então
tá. Dá pra concluir que apesar de todo esforço
até aqui, os pretendentes ao cargo mais alto do executivo
nacional ainda não absorveram completamente o conceito
de que os jogos são (sempre foram) parte integrante
da cultura brasileira. Me lembrei da Marta Suplicy
e sua atitude arrogante em relação aos games.
Voltei
ao chatGPT e pedi para fazer um resumo do que o executivo
atual fez até aqui, por iniciativa própria
e não por pressão setorizada, na área
games. Afinal, todo executivo tem que executar alguma coisa
pois é quem detem os meios para isso. Segue a resposta.
Se
considerarmos apenas iniciativas do Poder Executivo Federal
(e não projetos apresentados por deputados ou senadores
de outros partidos), o balanço é relativamente
curto. O governo não lançou um programa nacional
específico para a indústria de games equivalente
ao que existe para cinema, software ou semicondutores. Ainda
assim, houve algumas ações indiretas importantes.
Mas, independentemente de ou do
governo, o que de fato aconteceu de positivo nos últimos
anos?
Marco Legal dos Games - sem dúvida,
a medida mais importante foi a sanção da Lei
nº 14.852/2024. Embora o projeto tenha sido apresentado
e tramitado no Congresso antes da sanção,
coube ao executivo sancioná-lo e iniciar sua implementação.
Reconhecimento
dos games como produto cultural - o estado passou
a tratar oficialmente os jogos eletrônicos como parte
da economia criativa. Isso abriu caminho para que jogos
possam participar de mecanismos públicos de incentivo
cultural, algo que antes encontrava diversas barreiras jurídicas
e administrativas.
Regulamentação
pela ANCINE - depois do Marco Legal, o governo
iniciou a regulamentação necessária
para que a ANCINE pudesse financiar projetos
de jogos eletrônicos. A agência passou a elaborar
normas específicas para aprovação,
acompanhamento e prestação de contas de projetos
de games financiados com recursos públicos.
Inclusão
dos games nas políticas culturais - o Ministério
da Cultura passou a mencionar explicitamente a indústria
de jogos em sua política de economia criativa. Isso
representa uma mudança simbólica importante.
Durante muitos anos os games praticamente não apareciam
nos documentos oficiais do governo federal. Hoje aparecem
como segmento cultural reconhecido.
Também
é importante observar aquilo que não aconteceu.
Até o momento, não houve: redução
específica da carga tributária para jogos,
incentivos fiscais exclusivos para estúdios brasileiros,
programa nacional de exportação de games,
fundo específico para desenvolvimento de jogos, política
nacional de eSports, programa federal permanente
de formação profissional para desenvolvedores,
plano nacional de preservação digital.
Embora
existam editais pontuais em alguns estados e municípios,
eles não fazem parte de uma política federal
contínua.
Minha
impressão é que o atual governo adotou uma
postura de reconhecimento institucional, e não propriamente
de fomento econômico. O mérito do sistema como
um todo foi tirar os jogos eletrônicos de uma espécie
de limbo jurídico e cultural. Isso não é
pouca coisa. Mas também não basta. E caminho
andado não garante novas conquistas mas exige um
esforço de preservação do que já
virou realidade.
O
Brasil continua sendo um dos maiores mercados consumidores
de games do mundo e, ao mesmo tempo, um produtor relativamente
pequeno quando comparado a países como Canadá,
Polônia, Coreia do Sul ou mesmo França. Se
o objetivo é transformar o país em um polo
de desenvolvimento de jogos, ainda faltam muitas políticas
públicas condizentes com a modernidade deste setor.
No
final das contas andamos, mas não na velocidade necessária
e as vezes não na direção mais adequada.
No fundo a sensação real é a de que
"fomos empurrados" e não movimentos de
cima para baixo. Precisamos de um governo digital pleno,
que entenda a nova economia e como a sociedade está
se moldando aos novos tempos. Recursos financeiros, fundos,
fomentos são importantes mas não são,
por si só, repostas definitivas. As vezes, não
atrapalhar ajuda mais que medidas equivocadas.
Pense
bem quando for votar, porque é uma das poucas oportunidades
de exercer sua opinião sem medo de sofrer retaliações
por isso. Obviamente que o setor de games não é
o único e nem a única coisa a ser avaliada
numa decisão. Mas se você é do ramo
e tem interesses em dias melhores, vale a pena levar isso
em consideração: não espere que tudo
caia do céu, de mãos beijadas.