
Games
Sob Demanda
Durante
décadas a indústria dos videogames funcionou
segundo um modelo relativamente simples: alguém tinha
uma ideia, uma equipe desenvolvia essa ideia, meses ou anos
depois, o jogador finalmente podia experimentar o resultado.
Mesmo quando surgiram mods, engines independentes, ferramentas
de criação e plataformas abertas, a lógica
fundamental continuou a mesma: primeiro alguém criava
o jogo; depois outra pessoa jogava.
Agora
assistimos ao nascimento de uma mudança muito maior
do que qualquer revolução tecnológica
anterior. A era do jogo sob demanda, quando cada jogador
passa a ser seu próprio game designer.
Imagine
a seguinte situação.
Você
chega em casa após um dia cansativo e decide que
gostaria de jogar uma aventura policial ambientada em Belo
Horizonte nos anos 80, onde o
protagonista é um ex-jogador de futebol que precisa
investigar o desaparecimento de um pet de estimação,
premiado durante uma exposição.
Hoje
isso parece uma ideia absurda mas daqui a alguns anos (meses?),
talvez seja necessário apenas um prompt. Você
descreve o que deseja e a inteligência artificial
constrói personagens, regras, cenários, diálogos,
trilha sonora, desafios, sistema de progressão e,
alguns segundos depois, o jogo está pronto para ser
jogado, exatamente como você imaginou. Ou, talvez
mais assustador ainda, exatamente como você ainda
nem sabia que gostaria.
Pela
primeira vez na história do entretenimento, começamos
a perceber que o produto final pode deixar de ser o jogo
e passar a ser o próprio processo de criação
- uma "grande diversão", restrita a uns
poucos iluminados que detinham o domínio das ferramentas
de programação.
Nos
últimos meses, vários experimentos começaram
a mostrar como essa possibilidade está mais próxima
do que imaginávamos.
O
lançamento do modelo Fable 5 da
Anthropic chamou atenção
justamente pela capacidade de gerar aplicações
interativas complexas, incluindo pequenos jogos funcionais,
a partir de descrições simples. Pesquisadores
e criadores independentes passaram a produzir protótipos
jogáveis, clones experimentais de gêneros clássicos,
aventuras exploratórias e experiências interativas
completas usando praticamente apenas linguagem natural.
Veja o vídeo.
Ao
mesmo tempo, iniciativas como o Showrunner,
desenvolvido pela Fable Studio, vêm
explorando a ideia de entretenimento gerado sob demanda,
no qual o próprio usuário cria episódios,
personagens e situações narrativas através
de instruções textuais. Embora atualmente
voltado para animações e narrativas audiovisuais,
o conceito aponta diretamente para uma possível convergência
entre cinema, jogos e inteligência artificial generativa.
A
pergunta que naturalmente surge é: isso significa
o fim dos desenvolvedores de jogos? Provavelmente não.
Pelo menos não da forma como muitos imaginam porque
existe uma diferença enorme entre gerar conteúdo
e projetar experiências.
Se
pedir a uma inteligência artificial: "Faça
um jogo onde um arqueólogo é perseguido por
dinossauros cibernéticos em Marte", ela poderá
criar cenários, personagens e regras. Mas a pergunta
continua sendo outra: isso será divertido? Essa sempre
foi, e talvez continue sendo, a pergunta central do game
design.
E
só isso já nos leva a uma situação
que não está sendo devidamente percebida pelos
game designers que estão chegando agora no mercado:
o nome chama a atenção? As explicações
despertam o interesse em conhecer? Roda fácil, sem
precisar de alguma gambiarra estratosférica ou pior,
sem precisar de um upgrade do meus sistema que me custe
um rim? Afinal, basta acrescentar ao prompt: "otimize
o jogo para o meu velho celular" e como num passe de
mágica lá estará ele, rodando redondinho.
A
história dos videogames mostra que tecnologia nunca
foi suficiente por si só. Os melhores jogos raramente
são os mais complexos tecnicamente. Eles são
os que melhor compreendem desejos humanos fundamentais:
curiosidade, descoberta, superação, competição,
cooperação, humor, medo ou simplesmente o
prazer de explorar.
Talvez
seja justamente aí que o papel do designer mude e,
em vez de construir manualmente cada elemento do jogo, ele
passe a desenhar sistemas capazes de gerar experiências
significativas. O trabalho deixará de ser criar cada
árvore de uma floresta e passará a ser criar
as regras que fazem a floresta existir.
Existe,
porém, uma consequência ainda mais fascinante:
durante décadas, os jogadores aprenderam a adaptar
seus desejos aos jogos disponíveis. Na era do game
sob demanda, serão os jogos que se adaptarão
aos desejos dos jogadores. Quer uma aventura de detetive
passada em Franca durante os anos 70?
Ela existirá. Quer um RPG onde você
administra uma locadora de videogames em 1988?
Ele existirá. Quer uma narrativa interativa baseada
naquela história absurda que aconteceu no churrasco
da família no último domingo? Ela também
existirá.
E
é justamente esse o aspecto mais revolucionário
dessa nova era. Os videogames podem deixar de ser produtos
padronizados para se tornarem experiências profundamente
pessoais. Cada jogador terá seus próprios
mundos, suas próprias histórias, suas próprias
regras e seu próprio senso de humor. A representatividade
coletiva nunca esteve tão disponível e o que
é mais bonito: sem precisar ser imposta como lacração
modinha.
Naturalmente,
isso também levanta questões difíceis.
Se cada pessoa possuir seu próprio jogo perfeito,
ainda existirão fenômenos coletivos como Super
Mario, Doom, Minecraft
ou GTA? Continuaremos compartilhando experiências
comuns? Ainda fará sentido falar em indústria
de jogos? Ou mesmo fará sentido o debate atual sobre
mídia física versus mídia digital?
Ninguém sabe.
A
pergunta mais importante é outra: se qualquer pessoa
puder criar qualquer jogo em poucos segundos, qual será
o verdadeiro valor da criatividade? Minha suspeita é
que a resposta continuará sendo a mesma de sempre.
As ferramentas mudam. A tecnologia evolui. As interfaces
desaparecem. Mas a imaginação humana continua
sendo a única matéria-prima verdadeiramente
insubstituível.
O
futuro dos videogames pode não ser o momento em que
as máquinas aprenderão a criar jogos. Talvez
seja o momento em que descobriremos quantos jogos sempre
existiram dentro de cada um de nós.
Se
você chegou até aqui e realmente quer entender
o que está vindo pela frente, gasta alguns minutos
da sua atenção e assista a esses dois pequenos
vídeos. Eles dão uma ideia clara do que está
em discussão nesse momento.
https://www.youtube.com/watch?v=y8-Ib0kjYrU
https://youtu.be/nx2NzTDuD-o?is=y3inCRl5k8iE7O4q.