
Cultura
Não É Skin
Sempre que surge a velha discussão sobre identidade
cultural nos jogos brasileiros, a primeira reação
costuma ser previsível: colocar uma favela no cenário,
um personagem falando girias, uma praia ao fundo, personagens
originários (indígenas, pra ser mais exato),
um carnaval perdido em alguma fase, um folclore nacional
e pronto, agora o jogo é brasileiro. Não é.
Cultura
não é decoração. Muito menos
skin temática.
A
maior confusão do desenvolvedor brasileiro não
está em usar elementos nacionais, mas em entender
como transformar experiências culturais em linguagem
de jogo. Isso é muito mais profundo do que simplesmente
estética. E não basta se esconder apenas atrás
da língua mãe (alguns nem isso).
Um
jogo pode se passar na Noruega e ainda assim ter uma lógica
completamente brasileira. Da mesma forma, pode colocar um
Cristo Redentor no menu e continuar parecendo um produto
genérico feito para imitar tendências estrangeiras.
O
problema começa quando o próprio desenvolvedor
acredita que ter identidade significa parecer exótico
para o mercado internacional. É neste contexto que
nasce uma caricatura.
A
cultura brasileira é complexa demais para caber apenas
em regionalismo visual. Ela está na forma como nos
relacionamos, improvisamos, sobrevivemos, contamos histórias
e encaramos regras. Está no humor, na informalidade,
na criatividade diante da limitação e até
na gambiarra que, gostemos ou não, é uma linguagem
cultural fortíssima nossa.
Talvez
por isso muitos jogos nacionais mais interessantes sejam
justamente os que não tentam vender brasilidade,
mas acabam transmitindo isso naturalmente.
O
Brasil funciona muito bem quando o jogo abraça interação
social, o improviso, o caos organizado, a narrativa oral,
o humor, o conflito humano próximo, a sobrevivência
cotidiana, a exploração de ambientes vivos
e contraditórios. Isso conversa diretamente com quem
somos.
Por
outro lado, existe uma insistência quase automática
em copiar formatos que nasceram em contextos culturais completamente
diferentes. O resultado costuma ser um jogo tecnicamente
competente, mas emocionalmente neutro. Poderia ter sido
feito aqui, no Canadá ou na Coreia. Não importa,
mas deveria importar.
Isso
não significa que o jogo brasileiro precise virar
folclore interativo ou aula de história gamificada,
para ser relevante. Cultura não é obrigação
pedagógica, nem literatura clássica embutida
artificialmente. O problema aparece justamente quando ela,
a cultura, é usada apenas como embalagem turística.
Pra encher os olhos de gringo.
Existe
uma diferença enorme entre usar o Brasil como cenário
e construir um jogo com pensamento brasileiro.
Quando
olhamos para os formatos mais adequados para expressar nossa
identidade, alguns caminhos aparecem quase naturalmente.
O primeiro deles é a narrativa.
Nós
contamos histórias o tempo todo. Em mesa de bar,
no ônibus, na fila, na internet. Nossa cultura é
extremamente oral, episódica, rápida, sintética
e emocional. Isso funciona muito bem em adventures,
RPGs narrativos, visual novels,
jogos de exploração e experiências focadas
em personagem.
Outro
caminho interessante é o multiplayer social. Nós
jogamos conversando, brincando, improvisando regra e transformando
mecânica em convivência. Talvez por isso party
games, jogos cooperativos e experiências emergentes
tenham tanto potencial por aqui.
Também
existe espaço enorme para jogos de gestão
e sobrevivência ligados ao cotidiano brasileiro. Não
necessariamente simuladores realistas, mas sistemas inspirados
em nossas dinâmicas sociais, tais como: transporte,
comércio informal, futebol de bairro, política
local, construção improvisada e relações
de comunidade. Tudo isso é material de gameplay.
Mas
existe um ponto importante: identidade cultural não
nasce de edital. Nem de obrigação temática.
Muito menos de hashtag. Ela surge quando o desenvolvedor
perde o medo de colocar a própria experiência
dentro do jogo. E talvez esse seja o nosso maior bloqueio.
Durante
décadas, o mercado brasileiro se forçou a
aprender que precisava parecer estrangeiro para ser aceito.
Interface em inglês, estética internacional,
discurso internacional, comportamento internacional. Como
se assumir a própria origem diminuísse o valor
do produto. Só que nenhuma indústria cultural
forte nasceu tentando esconder de onde veio.
Japão
virou referência justamente por soar japonês.
A França preserva sua identidade estética.
Os países nórdicos transformaram sua mitologia
em linguagem global. Enquanto isso, o Brasil ainda parece
pedir desculpas por ser brasileiro.
No
fim das contas, identidade cultural em games não
é sobre colocar samba no menu inicial. É sobre
construir jogos que carreguem nossas contradições,
nossa linguagem, nosso humor e nossa forma de enxergar o
mundo.
Cultura
não é cenário, mas ponto de vista.
Talvez o jogo brasileiro só encontre sua verdadeira
força no dia em que a maior parte dos desenvolvedores
parar de tentar parecer que o jogo vem de outro lugar.