
Mais
Jogos Ou Mais Mercado?
O Brasil produz atualmente uma grande quantidade de jogos
digitais inéditos, mas ainda não produz um
mercado localizado, característico e principalmente
com identidade nacional.
A
Gamescom Latam 2026 começa hoje
(29/04/26) e, como nas edições
anteriores, deve reforçar uma impressão que
já virou quase consenso: o desenvolvedor brasileiro,
solitário ou em pequenos grupos (estúdios),
produz jogos digitais em profusão. De todos os tipos.
Em todos os estágios. O problema é que produzir
jogos não é a mesma coisa que produzir mercado.
Não são apenas os desenvolvedores que devem
marcar a sua presença, mas toda a cadeia de produção
que circula ao redor dos títulos em destaque.
Eventos
como a Gamescom ajudam (e muito) a dar
visibilidade, organizar encontros e criar a sensação
de pertencimento a uma indústria. Durante alguns
dias, tudo funciona: estúdios mostram projetos, publishers
circulam, jogadores testam, negócios parecem possíveis.
Mas essa estrutura ainda é episódica. Ela
existe no evento e desaparece logo depois.
O
Brasil já provou que consegue organizar eventos grandes.
O que ainda não conseguiu foi construir mecanismos
contínuos de divulgação e circulação
de jogos. Hoje, a visibilidade de um título brasileiro
depende muito mais de fatores externos, algoritmo de loja,
streamer, sorte, do que de uma estrutura local consistente.
Não
existe, de fato, um sistema nacional de distribuição,
promoção e acompanhamento de jogos brasileiros.
O que existe são iniciativas pontuais. Boas, relevantes,
mas isoladas.
A
Gamescom Latam, nesse contexto, funciona
mais como vitrine do que como engrenagem. Mostra o que já
foi feito, mas ainda não garante o que será
feito depois.
Outro
ponto que raramente entra na discussão é a
linguagem.
Existe
uma insistência quase automática em tratar
o mercado brasileiro como se ele não fosse brasileiro.
Jogos apresentados em inglês, materiais promocionais
voltados prioritariamente para fora, demonstram uma comunicação
que ignora o público local, como se ele fosse secundário.
A justificativa é sempre a mesma: precisamos ser
globais.
Ao
abdicar da própria língua como ferramenta
principal e primordial de comunicação, o desenvolvedor
também abre mão de construir um público
local mais sólido. E sem público local, não
existe base. Existe apenas tentativa de exportação.
Nenhuma indústria cultural se sustenta ignorando
o próprio território.
O
cinema não faz isso. A música não faz
isso. Literatura não faz isso. Mas o game brasileiro
ainda insiste nisso. E aí entra outro ponto estrutural:
a falta de eventos menores, mais frequentes e mais focados
em determinados nichos.
O
modelo atual privilegia o jogo apresentável, bonito,
polido, vendável. Isso é natural em eventos
grandes. O problema é quando só existe esse
tipo de espaço. Onde estão os encontros voltados
para gameplay puro? Para mecânica? Para experimentação?
Para fracasso controlado?
Sem
isso, o mercado entra em um ciclo previsível: todo
mundo tentando fazer algo que funcione e ninguém
tentando fazer algo que realmente signifique uma marca consistente.
Principalmente algo que defina, que se torne senso comum
e de conhecimento geral. O resultado é o que a gente
já conhece: muito jogo parecido, muita repetição
de fórmula, pouca ruptura real.
No
fim das contas, o Brasil está em um ponto curioso.
Já não dá mais para dizer que não
existe produção. Ela existe, e em volume significativo.
Mas também já não dá para fingir
que isso, por si só, constrói uma indústria.
Produção é apenas uma parte da equação.
Mercado exige continuidade, estrutura, circulação,
divulgação, público e identidade.
Em
tempo: estarei circulando pelos corredores do evento
e se você, produtor ou não, perceber um senhor
de cabelos brancos (poucos) olhando com curiosidade para
os jogos br, não se acanhe pois eu gostaria de saber
a sua opinião sobre tudo isso.