
Lei
Felca: proteção ou ruído regulatório?
Há uns 3 meses publiquei (nesta
coluna) uma comparação entre os jogos de rua
da minha juventude com os jogos digitais modernos, da juventude
atual. Para a imagem ilustrativa minha primeira opção
foi usar dois grupos de crianças se divertindo, em
tempos diferentes. Mas, vozes da minha cabeça, questionaram
se eu deveria usar imagens infanto juvenis, ainda que a
comparação versasse sobre as coisas boas de
ambos os tempos. Perguntei ao doutor Google/IA
se haveria algum problema nisso.
Recebi
um extenso alerta sobre a proximidade da implantação
da lei Felca e a recomendação
de evitar esse tipo de ilustração. Na dúvida
não use, foi a sugestão. Então troquei
as crianças na imagem por robozinhos adolescentes.
Foi
censura explícita? Não. Foi auto censura explícita?
Também acho que não, afinal, eu poderia "peitar"
a recomendação e dane-se o canudinho de papel,
como manda aquela música do DJ JPR.
Mas resolvi não comprar briga com nenhuma associação
que defende danos morais coletivos, seja lá o que
isso realmente signifique.
Foi
um alerta e como todo bom alerta, ele pode ou não
influenciar decisões. O importante é compreender
que decisões podem não estar expressas na
letra fria da lei, principalmente quando são mal
redigidas e escondem interpretações que podem
servir aos donos do chicote da vez.
A
premissa da lei Felca é sedutora:
limitar exposição a conteúdos nocivos,
reforçar controles parentais, responsabilizar plataformas
e, de quebra, dar ao Estado algum poder de supervisão.
Em tese é praticamente impossível ser contra
isso. O problema começa quando essa intenção
precisa virar regra aplicável a um mercado complexo,
global e altamente dinâmico como o de jogos digitais,
sem pelo menos um grande debate.
O
ponto crítico é a tal "responsabilização
das plataformas". Ao exigir controle mais rígido
sobre o que é distribuído, a tendência
é que lojas digitais (ou intermediários) passem
a adotar critérios mais conservadores.
Na
prática, isso pode significar remoções
preventivas, bloqueios regionais e maior dificuldade de
publicação, especialmente para desenvolvedores
independentes que não têm estrutura jurídica
para navegar em zonas cinzentas. Se a lei "pegar"
e os meios endurecerem, a vigilância vira o caos,
com iniciativas para burlar os sistemas pipocando por todos
os lados. Se não "pegar", torna-se apenas
mais um esforço inútil de gasto do erário
na direção errada. Típicos de governos...
(complete os pontos com o adjetivo que achar melhor).
É
tudo o que os desenvolvedores brasileiros, em especial os
pequenos estúdios indies, não precisam: mais
entraves e burocracias além das trocentas já
existentes.
Do
ponto de vista de mercado, o maior perigo não é
uma proibição explícita, mas o aumento
do atrito. Publicar fica mais difícil, operar fica
mais caro, o risco jurídico aumenta. Em um setor
que já lida com margens apertadas e alta concorrência,
isso pode significar menos jogos sendo feitos ou mais jogos
sendo feitos fora do Brasil. Não é a imaginária
proteção aos adolescentes que causa isso mas
a não clareza dos métodos aplicados.
O
caminho mais inteligente, na minha opinião, continua
sendo o mesmo de sempre: fazer um bom jogo, entender o contexto
onde ele será lançado e reduzir riscos desnecessários.
O indie não tem margem para errar por ingenuidade.
Resumindo:
a primeira coisa a fazer é entender minimamente o
ambiente regulatório. Não precisa virar advogado,
mas ignorar completamente regras, classificação
indicativa, termos de uso de plataformas e exigências
legais é pedir problema. O indie que trata isso como
"coisa para depois" geralmente descobre tarde
demais que o "depois" já chegou.
Outra
frente é jogar junto com as plataformas e não
contra elas. Steam, consoles e lojas mobile
já possuem seus próprios sistemas de classificação,
controle de conteúdo e diretrizes. Se a lei apertar,
essas plataformas vão ser as primeiras a reagir e
quem já estiver alinhado com boas práticas
(descrição clara, tags corretas, aviso de
conteúdo, uso responsável de mecânicas
sensíveis) sai na frente.
Vale
lembrar que é aconselhável evitar zonas cinzentas
desnecessárias. Não se trata de censura criativa,
mas de estratégia. Se o seu jogo trabalha com temas
potencialmente sensíveis, violência explícita,
conteúdo adulto, simulação controversa,
é fundamental contextualizar isso bem. Falta de contexto
é o que mais gera interpretação errada,
denúncia e, eventualmente, problema.
No
fim das contas leis mudam, regras mudam, plataformas mudam
e até a sociedade muda, mas uma coisa permanece constante:
quem entende o ambiente onde está operando sempre
sai na frente de quem apenas reclama dele ou apenas enxerga
e explora o uso político da confusão.
E
talvez essa seja a verdadeira proteção que
nenhum governo consegue oferecer: consciência do próprio
jogo que se está fazendo.
E
não, não é covardia e nem "ficar
em cima do muro". É uma declaração
de maturidade, como já ensinava Esopo,
séculos atrás na fábula do carvalho
e do junco. A menos é claro que ainda acredite piamente
que os dois lados (o lado censor e o lado que defende nenhum
controle) sejam realmente acertivos em suas proposições.
Voltando
ao tema dos robozinhos, espero que nenhuma Associação
de Defesa da Moralidade Robótica me processe por
atentar contra uma lei Felca para os robôs adolescentes.
Por mais idiota que isso possa parecer.