Imagine a seguinte situação: uma pessoa está lendo um livro e morre. O que acontece? Nada, afinal a pessoa morreu e não vai mais continuar lendo, pelo menos não nessa vida.

No mundo da imaginação, que é o mundo habitado por leitores, seria possível reproduzir tal resultado? Num livro impresso não, mas num livro digital interativo? Heim? Pense mais uma vez, afinal a ficção interativa pressupõe a possibilidade de vários caminhos através da narrativa e um deles poderia ser a morte do leitor (o que é bem comum nos jogos).

O que acontece quando um leitor morre? Obviamente que, dali para frente ele não poderá ler mais nada, mas podemos assumir que no plano para onde ele foi, a sua memória ainda permanece. Trocando em miúdos: ele pode reler as páginas anteriores, mas não as posteriores e talvez, numa dessas páginas haja um desvio que não o conduza para a morte.

Ainda está muito simples? Vamos complicar: e se o leitor pudesse ser induzido, pela narrativa, a ter comportamentos distintos. Por exemplo, a narrativa pode estar em primeira pessoa ou quem narra os eventos nem sequer fazer parte deles. No início o leitor (você) escolhe como quer "ler" a narrativa e isso pode ter influência na sua morte.

Agora, veja só o complicador RD: não estou falando de uma página específica na qual o leitor "morre" mas dele "morrer" de sede (por exemplo) ou de fome, ou de uma infecção. E morrer nessas condições implica nele poder "morrer" em qualquer página que esteja lendo.

Parece difícil de realizar? Nem tanto, basta escrever levando em conta essas possibilidades. Se não tentar, não tem como saber se consegue construir uma narrativa diferentona.

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Renato Degiovani é game designer e produtor de jogos desde o começo da década de 80. Foi editor da revista Micro Sistemas e produz o site TILT online desde 1997. É o criador do sistema Micro Aventuras.